É simples engravidar depois dos 40 anos? A medicina ainda não avançou tanto assim

Matéria publicada na Revista Veja.com em 19/09/2015 com participação do Dr. Paulo Serafini.

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Um levantamento realizado pelo site de VEJA mostra que 30% das mulheres que recorrem ao tratamento de fertilização já chegaram aos 40 anos. Elas ainda acreditam que é fácil engravidar por métodos artificiais. Mas não é.

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Cada vez mais mulheres estão correndo contra o relógio biológico e decidindo engravidar mais tarde. As técnicas de fertilização e agora o congelamento de óvulos aparecem como um meio de tornar esse processo mais simples e possível .

“Quando pergunto para as minhas alunas na faixa etária dos 20, 25 anos se congelariam seus óvulos hoje, elas respondem que ainda são muito novas para pensar em gravidez”. A experiência de Paulo Serafini, professor de reprodução humana e diretor do Grupo Huntington, mostra à perfeição o cenário da reprodução assistida. Sim, sob ponto de vista social, pode até ser muito cedo para engravidar tão jovem assim. Sob aspecto biológico, porém, as coisas são bem diferentes. O relógio biológico feminino anda a uma velocidade bem maior do que se imagina.

A chance de gravidez natural antes do 30 anos, no auge da juventude, é de 30% – com ajuda da medicina é de 60%. Mas a queda na fertilidade cai vertiginosamente com o passar da idade, inclusive por métodos artificiais. Aos 40 anos, a chance natural é de 10% e, com tratamento, de no máximo 20%. Agora outra comparação: mulheres com menos de 30 anos representam apenas 10% das pacientes que recorrem às clínicas de fertilização. As de 40, 27%.

Um levantamento realizado pelo site de VEJA mostrou que a maioria das mulheres com mais de 40 anos que procuram tratamentos para engravidar acreditam que será fácil. Muitas vezes, a alternativa para elas é a utilização de óvulos doados.

A fertilização in vitro consiste basicamente na fecundação do óvulo em laboratório que irá formar o embrião. As chances desse método são maiores do que as naturais porque permite a extração de 1 a 3 óvulos do organismo da mulher antes da inseminação. No método natural, a mulher libera apenas um óvulo por mês.

A mulher nasce com uma população de folículos, espécie de bolsas onde ficam os óvulos. A cada ciclo menstrual, alguns folículos são recrutados. Um deles se desenvolve e cresce até a ovulação e é descartado durante a menstruação. Isso acontece todos os meses ao longo da vida fértil da mulher. Após os 30 anos de idade, para se ter uma ideia, mais da metade dos óvulos já foram liberados no ciclo menstrual. Tanto a quantidade como a qualidade dos óvulos caem exponencialmente. E isso vale tanto para o método natural quanto para o artificial.

As mulheres de 40 anos devem ainda considerar uma outra questão: o envelhecimento natural do organismo aumenta os riscos de alterações cromossômicas, responsáveis por síndromes genéticas, como o Down. Em pacientes de 30 anos, o risco do bebê nascer com a síndrome é de 1 a cada 900. Aos 40 anos, esse risco é de 1 a cada 100.

Por isso, se os médicos pudessem eleger uma idade ideal para as mulheres engravidarem seria entre 25 e 30 anos. O dilema é que nessa faixa etária muitas mulheres estão comprometidas com estudo, carreira ou outras prioridades e acabam postergando a gravidez. Diante desse cenário, uma saída apontada pelos especialistas é o congelamento de óvulos (que também deveria ser feito até por volta dos 30 anos, diga-se de passagem). Os óvulos mantêm as características da idade em que foram conservados.

Congelamento de óvulos

Considerada o grande presente da medicina reprodutiva, a técnica consiste em coletar óvulos e congelá-los por meio de um processo de esfriamento rápido, em no máximo cinco minutos, conhecido como vitrificação, que mantém as células intactas e aumenta a taxa de aproveitamento para mais de 90%.

Embora não tenha 100% de garantia, pois depende do sucesso da fertilização in vitro (40% de taxa de sucesso) e seu custo seja elevado (o procedimento pode chegar a custar mais de 23 mil reais), um levantamento realizado por VEJA São Paulo mostrou que têm aumentado o número de mulheres em busca do procedimento. Em 2014, 834 pessoas realizaram o procedimento nas treze principais clínicas da cidade de São Paulo, o que representa um aumento de 80% em relação a 2013.

A técnica surgiu como um recurso indicado apenas para pacientes com câncer, que corriam o risco de perder a capacidade de gerar filhos após o tratamento.

Dr. Paulo Serafini, diretor do Grupo Huntington.

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Gravidez e Carreira

Confira a matéria com a Dra. Fernanda Rodrigues, médica especialista em reprodução assistida do Grupo Huntington, sobre os limites biológicos que as mulheres precisam saber quando decidem adiar ou não uma gravidez.

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Qual a média da faixa etária de mulheres que procuram pela fertilização assistida?

A clínica tem pacientes de todas as idades, mas pudemos observar um aumento da procura em pacientes acima dos 35 anos.

Dentre elas, existem as que adiaram ao máximo a maternidade?

Na última década, a mulher de um modo geral tende a adiar a maternidade o máximo possível em busca do parceiro ideal e, sobretudo, para alcançar uma estabilidade financeira. As últimas estatísticas do IBGE comprovam esse comportamento.

Existe algum questionamento sobre o procedimento atrapalhar a carreira de quem optou por engravidar tarde?

Como dito, as mulheres tem adiado a maternidade, principalmente por motivo profissional.  Porém, no momento em que decidem engravidar, elas colocam a carreira em segundo plano, principalmente quando notam que terão alguma dificuldade para alcançar o sonho da gravidez.

Você conversa com suas pacientes sobre as questões que envolvem uma gravidez?

Sim, conversa-se bastante com todas as pacientes sobre isso, principalmente aquelas que passam em consulta ginecológica anual de rotina e que ainda não estão planejando engravidar. As mulheres devem ser conscientizadas da real queda da fertilidade que ocorre com acima dos 35 anos e, principalmente, acima dos 40. Muitas pensam que a fertilização in vitro poderá resolver e ajudar em qualquer situação e que por isso podem adiar a maternidade tranquilamente. Porém, isso é uma ilusão.

É verdade que muitas mulheres conseguem engravidar com a ajuda da tecnologia e ciência, mas as taxas de gravidez também são menores com o passar da idade, mesmo fazendo tratamento de reprodução assistida. Portanto, é nosso dever explicar os limites biológicos da fertilidade feminina e aconselhar que, se possível, não adiem a gestação além dos 35 anos.

Mesmo que esteja no consultório, tem paciente que ainda não tem a certeza se deverá optar pela gravidez?

Existem pacientes que estão tão envolvidas com sua carreira que ainda se questionam se realmente desejam ser mães. Elas se quer imaginam a mudança da rotina e, por isso, acabam adiando ainda mais. Muitas ainda não encontraram o parceiro ideal e por isso também têm dúvidas sobre o desejo da maternidade.

Por outro lado, há muitas pacientes que optam pela maternidade independente, ou seja, se sentem seguras e estáveis financeiramente e, mesmo sem o parceiro ideal, fazem tratamento com banco de sêmen de doador e engravidam de maneira resolvida. Independentemente da situação: o mais importante é que as pacientes sejam informadas sobre os limites biológicos. É muito triste quando se atende pacientes já com a reserva ovariana diminuída – ou até mesmo ausente, falando que se soubesse antes que isso iria acontecer, tinha engravidado ou feito algum tratamento mais jovem. É por isso que a conscientização é fundamental para que cada paciente tome sua decisão.

Texto publicado na Revista Downtown em 13/05/2015Clique aqui e acesse a matéria no portal da revista.

Dra. Fernanda Rodrigues, especialista em reprodução assistida do Grupo Huntington.

Fernanda Rodrigues

Você já pensou na sua fertilidade?

Não faz muito tempo quando ainda adolescente minha mãe chamou a mim e minha irmã e disse: “Preste atenção vocês dois, primeiro os estudos e a profissão, nem pensem em filhos agora. Estão ouvindo!”. Na época nada parecia mais correto e quem dos meus amigos engravidou foi massacrado. Alguém conhece esta história?

mamae-amamentando-o-bebe-enquanto-trabalha-foto-didonshutterstock-0000000000009ADDQual não foi a mulher que nesses últimos 20 anos não se dedicou aos estudos para conseguir seu espaço em detrimento da família? Atualmente, as prioridades femininas convergem para a vida profissional e independência financeira, por isso, o sonho de ter um filho acaba sendo adiado. A idéia seria clara: a medicina iria ajudar na hora certa. Mas isso não é totalmente verdade.

Nesse caminho há algo que inexoravelmente chega. O próximo ano de vida. A questão da idade vem se tornando o principal motivo pelo qual as mulheres buscam ajuda profissional em clínica de infertilidade. A vida atarefada do mercado de trabalho com a constante busca pelo sucesso juntamente com a vontade de viver intensamente suas experiências faz com que a maior parte delas deixe a maternidade em último plano, ainda que ter um filho seja um grande sonho.

O problema é quando chega a hora de deixar de lado as conquistas e buscar um filho. É fato, não há uma idade certa para tentar a maternidade, mas é importante que a mulher esteja segura em sua decisão, afinal, quanto maior sua estabilidade emocional, financeira e familiar, mas serena será o caminho que virá.

O caminho deverá ter um início: saber onde estou nesse momento na questão fertilidade e hoje temos algumas alternativas. Dosagens hormonais e ultrassonografia para saber como anda o útero são clássicas formas de acessar a algumas dessas questões, mas ainda limitadas pois são um retrato momentâneo da mulher. Como uma foto, você pode tirá-la vestida para uma festa ou acordando, certamente não será a real você.

Mais recentemente um nova dosagem se tornou essencial para acessar este momento, a dosagem do hormônio anti-mulleriano. Com uma simples dosagem de sangue muito pode ser conhecido da mulher e um futuro mais assertivo pode ser determinado. Claro que o exame não termina nele mesmo, mas outros dados merece, e precisam, ser conhecidos para que isto se torne claro.

Em minha opinião hoje qualquer mulher ao redor dos 35 anos, casada ou solteira, deveria buscar seu médico para se conhecer melhor. Mas por favor, não aceite um simples: “mas você é tão jovem!”, como resposta. Muitos colegas não estão ainda muito confortáveis com esta nova mulher que, cartesianamente, quer tornar sua vida mais segura.

Como pai de 3 meninas sem dúvida não fugirei ao que ouvi há muito tempo de meus próprios pais: engravidar cedo, não!”, mas certamente todas terão sua fertilidade protegida com orientações nesse sentido.

Vamberto Maia

 

 

 

 

 

 

Dr. Vamberto Maia, médico especialista em reprodução assistida